Temática: Ousar formar professores para novas relações com conhecimentos, ciências e culturas
O que formar quer dizer? Não nos deixemos enganar pela aparente simplicidade da pergunta. Lembremo-nos de P. Bourdieu em sua fecunda indagação-título de uma das suas obras: “o que falar quer dizer?”. Se nos demoramos sobre a nossa questão, percebemos a sua potência para nos conduzir diante do desafio posto por “ousar formar professores”. E resistir enfrentando o difícil espaço imposto pelas injunções políticas, econômicas e sociais que vivemos e que acuam a escola numa situação muito desfavorável ao cumprimento de sua tarefa é o que temos feito. Como fazer isto de modo sempre justo e promissor para uma sociedade democrática, dotando o trabalho docente de sentidos renovados e fortes, em todos os níveis educativos? Assim, avancemos: o que formar quer dizer quando se trata da educação de professores, nos dias atuais?
Há quem sustente ser hora de privilegiar a transmissão de conteúdos, principalmente. Também há os que enfatizem a aquisição de habilidades técnicas e ainda os que se preocupem em realçar os valores necessários ao cuidado do mundo. O VII Congresso Nacional de Formação de Professores articulado ao XVII Congresso Estadual Paulista sobre Formação de Educadores, em seu papel proeminente na captação de urgências e na apresentação de proposições, em sua área, tem buscado problematizar de forma constante tais ênfases. Na presente edição, a ousadia aludida como parte do entendimento dos problemas para cuja superação queremos contribuir diz respeito à possibilidade e às condições requeridas para fazer face a imposições, como as do tempo acelerado e da multiplicidade informativa que disputam nossas atenções e temporalidades do cotidiano. Imposições ligadas às formas diuturnamente inovadas de acesso aos conhecimentos e das exigências que se impõem ao cumprimento das tarefas da instituição escolar. Há quem interrogue a potência da própria forma escolar nesse enfrentamento e quem lute por uma refundação das lógicas do ensino e da educação. Reforçam-se por esses caminhos questões como a de saber o que aprender para ensinar? O que significa ousar formar indivíduos que, no confronto com as imposições tecnológicas, a força da IA e outros dispositivos, sejam aptos a fazer com que estes não comprometam, mas antes colaborem para o desenvolvimento e preservação de relações férteis com os conhecimentos, as ciências e as culturas? E como já disseram, sem que se deixe o sentido humano e ético se atrofiarem sob pretexto da urgência, da eficácia e da pressão social. Quais práticas para tais fins? E nesse quadro, como contribuir para a formação de professores atentos às exigências de uma escola justa para todos em seu alcance e em suas formas de atuação, que favoreçam às novas gerações o alcance de valores e atitudes de solidariedade, atenção para com o conhecimento e cuidado de si e do outro, pelo reconhecimento de todas as nossas diversidades e também de tudo que nos une como seres vivos?
Certamente este Congresso, em sua forte tradição, tem abrigado e discutido muitas das dimensões contidas nas indicações aqui feitas. O que se sublinha, neste momento, é a necessidade de uma atenção detida para a convergência ou para as confluências dessas dimensões na proposição de diretrizes para as políticas nacionais, sem deixar de lado a potência e as experiências da história educacional do país que, entre mais, vem desde há muito intensificando os estudos acerca da formação docente e das relações entre a universidade, a escola pública e a educação de professores. Não vamos esquecer o passado! Nele estão nossas raízes. Perguntemo-nos quais linhas de continuidade podemos traçar aqui, linhas de continuidade que possam auxiliar para que não recomecemos indefinidamente, sempre a crer, de maneira ingênua, numa originalidade desenraizada de nossas iniciativas. Alguns poderão achar que se pede demais à escola e aos professores. Não nos esqueçamos, no entanto, como diz Dominique Lécourt, que o futuro das gerações atuais dependerá, em grande parte, de nossa capacidade de ousar ensinar.